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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Guardando o Rebanho - Silva Porto


Análise da obra
Guardando o Rebanho

A obra Guardando o Rebanho, de António Carvalho da Silva Porto, que se encontra no Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto), e realizada com óleo sobre tela (160 x 200cm), foi criada em 1893, e insere-se na estética realista.

Nesta pintura, tão própria do Realismo, pode-se observar uma atmosfera bastante objectiva e luminosa do campo, em que subsiste uma descrição detalhada e pormenorizada de toda a Natureza e elementos envolventes (montes, ervas, terra batida, etc.).

A nível iconográfico, pode-se presenciar um camponês num plano mais próximo, a ordenar o seu rebanho de ovelhas (sinónimo de sustento e de trabalho). Este é ainda acompanhado por um burro que suporta um fardo de palha e, onde se encontra uma digna e trabalhadora camponesa. Podemos concluir, pelas sombras e pela luminosidade com que o pintor concretizou esta obra, que esta é realizada num ambiente de Verão, onde a temperatura parece ser a protagonista. Ou seja, revela-se, assim, as duras condições de trabalho com que as classes mais baixas eram confrontadas diariamente.

Nesta obra pictórica, Silva Porto, consegue transmitir que as personagens do quadro têm carisma, dignidade e, com isso, são merecedoras de todo o respeito. Num ambiente próximo do Alentejo, dada a presença da oliveira, o artista consegue reflectir melhor do que ninguém o objectivo deste movimento que, utilizou a arte como instrumento de denúncia social e política (arte útil).

Os artistas como Silva Porto (1850-94), Silva Oliveira (1853-1927), José Malhoa (1855-1933) e Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), insurgiram-se contra o rigor académico e, procuraram simplificar o claro-escuro e praticar uma composição naturalista, sem alterar o enquadramento das cenas captadas. De forma geral, o desenho e a cor são matéricos e opacos e as pessoas são representadas com um ar simples e humilde, mas não miserável.

Captando a realidade social da 2ª metade do século XIX e, abandonando o subjectivismo, o sentimentalismo e o nacionalismo do Romantismo, os artistas deste movimento conseguem observar a realidade e reproduzi-la com sinceridade, demonstrando interesse pelo mundo contemporâneo. Atente-se quem em Portugal este estilo que se soube influenciar pela Fotografia, pelo Positivismo de Comte e, pelo Naturalismo de Escola de Barbizon, sofreu um atraso estrutural. Dado num período denominado por Regeneração, foi fortemente marcado pela conjectura social, económica e política (partilha de África no Congresso de Berlim, Ultimato Inglês, ditadura de João Franco, contestação à monarquia e o desenvolvimento dos ideais republicanos). No entanto, o aparecimento de obras como estas, numa sociedade conservadora nas suas mentalidades, reflecte que existiam artistas e mentes preocupadas com os seres mais vulneráveis e desfavorecidos da sociedade do século da mudança, das transformações e dos fortes efeitos da industrialização.

A obra de Silva Porto é uma das mais simbólicas e importantes do Realismo em Portugal ou não fosse a sua representação do real e dos temas sociais tão racional e criativa.

Trabalho de:Tânia Filipa Madeira Roberto

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Colheita-Ceifeiras - Silva Porto


Nome da Obra:
Colheita-Ceifeiras
Autor:
António Carvalho da Silva Porto
Data:
1893

Período:Pertencente à segunda metade do séc. XIX, e quase no séc. XX, esta pintura está entre o
Realismo e o Naturalismo português. Numa época em que a revolução industrial se espalhava pelo mundo, em Portugal começava a sentir-se os primeiros sopros daquilo a que se viria a transformar em ventos de mudança artística (sabemos que em Portugal tudo chega com um pequeno “delay”). Silva Porto estuda no Porto e vai estagiar em França e depois Itália. Regressa a Portugal onde vai ensinar para Lisboa pintura de paisagem. É um dos fundadores do Naturalismo. Como já disse, o pintor encontra-se entre o Naturalismo e o Realismo, estilos que definem muito bem as formas que são pintadas, assumindo a forma e a proporção e examinando o detalhe de uma maneira quase obcessiva. Esta observação minunciosa é fruto de uma vontade de evasão provocado pelo emergente e abusivo domínio da máquina e da indústria, por cujas mãos surge o capitalismo. Está portanto ligado a ideias socialistas e comunistas que se opõem a este recente choque tecnológico. Silva Porto destaca-se em Portugal, como Millet em França, ou Daumier ou Rosa Bonheur.

Tema:
Esta obra tem um carácter claramente realista. Representa a natureza com extremo detalhe e exprime também uma natureza de carácter social. Mostra uma vida dura em que as asperezas não são poupadas. O olhar da mulher em primeiro plano transmite talvez uma conformação cansada, uma rendição a uma vida de trabalhos. Não mostra a infelicidade, nem a miséria, mas um peso eterno que a postura da segunda mulher dá a notar, mais as cores escuras das suas vestes, reforçado pelos campos infinitos que se estendem nas suas costas. A crítica social é óbvia, mostrando uma classe que é porventura desfavorecida em relação à recentemente emergente burguesia capitalista.

Parece o Alentejo. As cores de vegetação seca e a luz forte dão a sensação de que o dia está quente ou a aquecer, e que o fim do dia de trabalho está longe. Apresenta uma clara semelhança com as “Respigadoras” de Millet.

Técnica:
Esta é uma pintura em tela realizada com tinta de óleo. A pincelada é cuidada como apraz ao bom estilo realista/naturalista. Mais não foi possível saber.

Estrutura Formal:No que toca à estrutura formal, esta pintura apresenta os traços característicos do estilo realista, com pinceladas curtas e cuidadas atingindo com perfeccionismo (e não perfeição) os detalhes. As figuras mostram-se detalhadas em termos de forma e proporção, e é perceptível o movimento que executam, embora não se apresentem impressões ou grafismos que exprimam esse movimento de forma directa; somente a pose assume esse movimento leve e lento.

O quadro é perfeitamente tridimensional apresentando uma clara noção de profundidade pelos campos dourados fora, até à linha do horizonte (situada no primeiro terço da imagem a contar de cima).

A luz e as cores jogam neste quadro, sendo que se nota a franca iluminação do sol sobre os campos secos de tons dourados, mostrando um início de manhã, pois a sombra projectada das duas figuras femininas vai longa e o horizonte apresenta uma coloração mais acizentada (toda a perspectiva vai tornando as tonalidades menos saturadas e mais acizentadas á medida que se aproximam do horizonte). O céu pinta-se de um azul que ganha força à medida que sobe. As cores dos campos não são puras, assim como toda a complexa trama de tonalidades que se mostram nas escuras vestimentas das mulheres.
O horizonte corta a pintura no primeiro terço da pintura a contar de cima e há duas linhas diagonais que atravessam o quadro unindo as cabeças das mulheres e os respectivos pés reforçando a noção perspética da composição (a sombra da mulher em primeiro plano segue essa linha).


Trabalho de:
Gonçalo Costa